Ensino/Cursos » Mestrado

Livro, Literatura e Novas Tecnologias

Mestrado em Literatura e Poéticas Comparadas

Universidade de Évora

(Semestral: 1º Semestre de 2000/2001)

Sinopse
A reflexão em torno da relação entre a(s) tecnologia(s) e a(s) Arte(s) remonta, pelo menos, à Antiguidade Clássica. Contudo, o que se tem alterado ao longo destes últimos tempos com a criação/invenção de novos media é a função específica da Arte no contexto geral desses mesmos meios. Aquilo que Kant chamava, no dealbar da disciplina Estética, de «finalidade sem fim», querendo com isto designar a manipulação de meios inerente às artes sem que ela com isto pretenda atingir um fim que seja exterior a si mesma (o centro da Arte habita no interior dos meios, como suporte da intuição, catarse, expressão, representação, etc., não no produto final que daí deriva), as novas tecnologias acabam por vir alterar essa relação funcional, acentuando noções como as de eficácia, comunicação, interactividade, etc.

Ora, a Literatura e as Poéticas também se alteram quando, na «ordem dos livros» (Chartier) (e não nos esqueçamos que a noção de «romance» enquanto género literário moderno é herdeira da noção de «livro»), assistimos à mutação, entre outras categorias, do «leitor» em «co-autor», do «texto» em «hipertexto», do «sequencial» em «não-linear», dos «átomos» em «bits». Sendo a Escrita uma tecnologia, hoje, a tecnologia alterou a escrita e, com ela, o modo de se criar/conceber a Literatura. De certo modo, poder-se-á dizer que este advento da «comunicação sem livro» (The end of books  or books without end?, interroga o título do livro recente de Yellowlees Douglas) coloca-nos, de um certo ponto de vista, e de novo, perante uma Querela entre Antigos e Modernos, tal como na França do final do séc. XVII. Só que agora ao leitor cabe não só a possibilidade, enquanto direito, de proceder a um julgamento pessoal, como, mais longe que isso, nalguns casos, é-lhe dada a possibilidade de, interactivamente, (re)criar novos sentidos narrativos e ficcionais. Evidentemente, a Literatura e as Poéticas em geral não se podem alhear de uma profunda reflexão sobre esta nova realidade e sobre as suas consequências, em termos teóricos e práticos, vertente reflexiva esta que, por isso mesmo, pensamos ser fundamental incluir no Mestrado de Literaturas e Poéticas Comparadas.


TÓPICOS programáticos

I Em torno da figuração da Escrita: A aventura da(s) Escrita(s)

I.1. Verba volant, scripta manent («As palavras voam, as escritas ficam»): Oral/Escrito
I.2. A Escrita é uma tecnologia
I.3. Matérias e formas: Suportes e instrumentos (escrita multiplicada e evolução da escrita)

II «Teoria do homem sentado»: A Escrita digital como Nova Escrita

II.1.Da origem à arquitectura do hipertexto
II.2.. O paradigma digital e as novas tecnologias da comunicação e informação
II.3. A «biblioteca de Babel» e a noção de labirinto: Mapeamento e cartografia
II.4. Literatura «ergódica»

III Um novo conceito de textualidade e a alteração de paradigma

III.1. Linear versus multilinear
III.2. Texto como «rede»
III.3. Intertextualidade, «texto acentrado» e «texto interactivo»

IV Alguns exemplos do state of art

BIBLIOGRAFIA

AMIRAN, Eyal and Unsworth, John, «Postmodern Culture: Publishing in the Electronic Medium», in The Public-Access Computer Systems Review 2.1 (1991), pp. 67-76.

BALLARD, J.G, «The Index», War Fever, London, William Collins Sons and Co., 1990, pp. 171-176.

---, «Notes Towards a Mental Breakdown», in War Fever, London, William Collins Sons and Co., 1990, pp. 161-170.

BARBOSA, Pedro, Ciberliteratura: Criação literária e computador, Lisboa, Cosmos, 1996

---, Teoria do homem sentado, Edições Afrontamento (livro+ disquete)

BARRETT, Edward (ed.), Text, ConText, and HyperText, Cambridge, The MIT Press 1988

---, The Society of Text: Hypertext, Hypermedia, and the Social Construction of Information, Cambridge, The MIT Press, 1989.

BARTHES, Roland, Mitologias, Lisboa, Edições 70, s.d.

---, O prazer do texto, Lisboa, Edições 70, 1973

---, O rumor da língua, Lisboa, Edições 70, 1984 cap. II «Da obra ao texto», pp. 47-84

---, O óbvio e o obtuso, Lisboa, Edições 70, 1984 cap. 1. «A escrita do visível», pp. 13-198

---, O grau zero da escrita, Lisboa, Edições 70, 1989

BAUDRILLARD, Jean, Simulations. Trans. Paul Foss, Paul Patton, and Philip Beitchman. New York, Semiotext(e), 1983.

BENJAMIN, Walter, Sobre arte, técnica, linguagem e política, Lisboa, Relógio d’Água, 1992 «O narrador», pp. 27-57; «O Autor enquanto produtor», pp. 137-156

BLANCHOT, Maurice, O Livro por Vir, Lisboa, Relógio d’Água, 1984

BENEDIKT, Michael, «Introduction», in Cyberspace: First Steps. Ed. Benedikt, Cambridge MA, The MIT Press, 1991.

BERK, Emily and Joseph DEVLIN (eds.), Hypertext/Hypermedia Handbook, New York, McGraw-Hill, 1991.

BOLTER, Jay David, Writing Space: The Computer, Hypertext, and the History of Writing. Hillsdale, NJ, Lawrence Erlbaum, 1991

BORGES, Jorge Luís, Ficções, tradução de Carlos Nejas, Lisboa, Livros do Brasil, s.d. (reed. In Obras Completas, vol. I (1923-1949), trad. José Colaço Barreiros, Lisboa, Editorial Teorema, pp. 439-550)

BURNETT, Kathleen, «Toward a Theory of Hypertextual Design», in Postmodern Culture 3.2 (Janeiro de 1993)

CALVINO, Italo, O castelo dos destinos cruzados, tradução de Gaetan Martins de Oliveira, Lisboa, Bertrand, 1977 (sobretudo a «Nota» final, pp. 119-126)

CONKLIN, E. Jeffery, «Hypertext: An Introduction and Survey» in IEEE Computer 20 (Setembro de 1987), pp. 17-41.

COOVER, Robert, «The End of Books», in The New York Times Book Review (21 Junho de 1992)

---, «Hyperfiction: Novels for the Computer», in New York Times Book Review (29 de Agosto de 1993), pp. 1-12.

CORTÁZAR, Julio, Hopscotch, trad. Gregory Rabassa, New York, Pantheon-Random House, 1987

CHARTIER, Roger, A ordem dos livros, tradução de Leonor Graça, Lisboa, Vega, 1997

---, A aventura do livro: Do leitor ao navegador, S. Paulo, Unesp, 1998

DAY, David. A Tolkien Bestiary, New York, Ballantine Books, 1979.

DELANY, Paul & LANDOW, George, Hipermedia and Literary studies, Cambridge, MIT Press, 1991

---, The digital word: text-based computing in the humanities, Cambridge, MIT Press, 1993

DELEUZE, G./ GUATTARI, Mille Plateaux: Capitalisme et schizophénie («Introduction»), Paris, Les Éditions Minuit, 1980, pp. 9-37

DEROSE, Steven J., «Biblical Studies and Hypertext», in Delany and Landow, pp. 185-204.

DERRIDA, Jacques, L’écriture et la différence, Paris, Seuil, 1967

---, Of Grammatology, trad. Gayatri Chakravorty Spivak, Baltimore, John Hopkins UP, 1976.

---, Margens da Filosofia, Porto, Rés, s.d. «Assinatura, acontecimento, contexto», pp. 404-433

EAGLETON, Terry. Literary Theory: An Introduction, London, 1983.

Electronic Labyrinth, http://Jefferson.village.virginia.edu/search.html

ESPEN, J. Aarseth, Cybertext: Perspectives on ergodic literature, Baltimore and London, The John Hopkins University Press, 1997

FOUCAULT, Michel, As palavras e as coisas, Lisboa, Edições 70, 1988 «As quatro similitudes», pp. 73-85; «A escrita das coisas», pp. 90-99; «Crítica e comentário», pp. 131- 145

---, L’ordre et le discours (leçon inaugurale au Collège de France prononcée le 2 décembre 1970), Paris, Gallimard, 1989 [trad. portuguesa, Lisboa, Relógio d'Água, 1997]

---, O que é um autor?, Lisboa, Vega, 1992

FRISSE, Mark, «From Text to Hypertext», in Byte (Outubro de 1988)

FURTADO, José Afonso, Os livros e as leituras: Novas ecologias da informação, Lisboa, Livros e leituras, 2000

GESS, Richard (ed.), After the Book: Writing Literature Writing Technology. Atlanta, Public Domain, 1992.

GOLDSCHMIDT, E.P., Medieval Texts and Their First Appearance in Print, Oxford, Oxford UP, 1943.

GRAHAM, David, «The Emblematic Hyperbook: Using HyperCard on Emblem Books», in Delany, pp. 273-286.

HASHIM, Safaa H., Exploring Hypertext Programming: Writing Knowledge Representation and Problem-Solving Programs, Blue Ridge Summit, PA, Winderest, 1990.

HOLDSTEIN, Deborah H. and Cynthia L. Selfe (eds.), Computers and Writing: Theory, Research, Practice. New York, The Modern Language Association of America, 1990.

HORN, Robert E. Mapping Hypertext: The Analysis, Linkage, and Display of Knowledge for the Next Generation of On-Line Text and Graphics, Lexington, MA, The Lexington Institute, 1989.

JONASSEN, David H. Hypertext/Hypermedia, Eaglewood Cliffs, NJ, Educational Technology Publishers, 1989.

JOSOPOVICI, Gabriel. The World and the Book, London, MacMillan, 1971.

JOYCE, James, Finnegan's Wake (1939) ,New York, Viking, 1976.

JOYCE, Michael, Afternoon, A Story, Computer software. Jackson, MI, Riverrun Limited, 1989. Macintosh Plus, System 6.0, 2MB RAM.

---. «Words on Works: Afternoon, A Story», in Leonardo 26/1 (1993), 79- 80.

HAYNES, Stephen L., «Intellectual Property and Licensing Concerns», in Berk and Devlin, pp. 227-241.

KOCH, Christina, «Combining Connectionist and Hypertext Techniques in the Study of Texts: A HyperNet Approach to Literary Scholarship», in Literary and Linguistic Computing 7.4 (1992), pp. 209-217.

LANDOW, George P., Hypertext: The Convergence of Contemporary Critical Theory and Technology, London, Johns Hopkins UP, 1992.

---, «The Rhetoric of Hypermedia: Some Rules for Authors», in Journal of Computing in Higher Education 1 (1989), pp. 39-64. Reed. in Delany and Landow, pp. 81-103.

LANDOW, George (ed.), The Dickens Web. Computer software. Watertown MA, Eastgate Systems, 1992. Macintosh Plus, System 6.0, 2MB RAM.

LANDOW, George P. and Paul Delany, «Hypertext, Hypermedia and Literary Studies: The State of the Art», in Delany and Landow, pp. 3-50.

LAUFER, Roger/SCAVETTA, Domenico, Texto, hipertexto, hipermedia, tradução de Conceição Azevedo, Porto, Rés Editora, s.d.

MALLOY, Judy, «Electronic Storytelling in the 21st Century», in Clifford Pickover, Visions of the Future, Forthcoming

MARTIN, James, Hyperdocuments and How to Create Them, Eaglewood Cliffs, NJ, Prentice-Hall, 1990.

MATAZZONI, Joe, «Books in a New Light», in Publish (October 1992), pp.16-21.

MCCAFFERY, Steve and bpNichol, Rational Geomancy: The Kids of the Book-Machine, Vancouver, Talonbooks, 1992.

MCLUHAN, Marshall, A galáxia de Gutenberg: A formação do homem tipográfico, tradução de Leónidas G. de Carvalho e Anísio Teixeira, 2ª edição, São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1977

---, Understanding the media, New York, McGraw-Hill, 1964

MONTAIGNE, M., Essais, 3 vols, Paris, Librairie Génerale Française, 1972 [sobretudo, «De l’incostance de nos actions» (II,i); «Du repentir» (III, ii); e «De l’expérience» (III, xiii)]

MOULTHROP, Stuart, «Toward a paradigm for reading hypertexts: Making nothing happen in hypermedia fiction», in Hypertext/Hypermedia handbook, edited by E. Berk and J. Devlin, New York, McGraw-Hill, 1991, pp. 65-78.

---, «Rhizome and resistence: Hypertext and the dreams of a new culture», in George Landow (ed.), Hyper/Text/Theory, Baltimore, The John Hopkins University Press, 1994, pp. 299-319.

MOURÃO, José Augusto, «Poesia hipertextual/Ciberpoética», in Catálogo Inter@ctividades, coordenação editorial de Teresa Cruz, Lisboa, CECL/FCSH-UNL/CML, 1997, pp. 52-56

---, Para uma poética do hipertexto: Ficção interactiva, Lisboa, col. «Estudos de Comunicação, cultura e tecnologias» (nº 6), Edições Universitárias lusófonas (no prelo)

MURRAY, Janet H., Hamlet on the holodeck: The future of narrative in cyberspace, NY, The Free Press, 1997

NABOKOV, Vladimir, Pale Fire (1962), New York, Berkley, 1975 (Fogo Pálido, trad. port. de Telma Costa, Lisboa Teorema, s.d. (1996))

NELSON, T.H., Literary Machines, Swarthmore, PA, publicação de autor, 1981.

---, «On the Xanadu Project», in Byte (Setembro de 1990), pp. 298-9.

NIELSEN, Jakob, «The Art of Navigating through Hypertext», Communications of the ACM 33 (Março de1990), pp. 296-310.

---, Hypertext and Hypermedia, San Diego, Academic Press, 1990.

NORRIS, Christopher, Deconstruction and Practice, London, Methuen, 1982.

POE, Edgar Allan, «A filosofia da composição», in Edgar Allan Poe,Mallarmé,Pessoa, Annabel Lee, Ulalume & O Corvo, tradução dos poemas por Stéphane Mallarmé e Fernando Pessoa, tradução das prosas por Carlos Valente, Lisboa, Hiena, 1993, 73-91

RADA, R., Hypertext: From Text to Expertext, Maidenhead, UK, McGraw- Hill, 1991.

REARICK, Thomas C., «Automating the Conversion of Text into Hypertext», in Berk and Devlin, pp. 113-140.

RONELL, Avital, The telephone book: Technology, Schizophenia, Electric speech, Lincoln and London, University of Nebraska Press, 1993 (1ª ed. 1986)

---, «Our narcotic modernity», in Verena A. Conley (org.), Rethinking technologies, Minneapolis, University of Minnesota Press,1993, pp. 59- 73.

SPENCER, Herbert. Pioneers of Modern Typography, London, Lund Humphries, 1982.

STERNE, Laurence (1759-1767), The Life and Opinions of Tristram Shandy, Gentleman, Graham Petrie (ed.), Harmondsworth, Penguin, 1986. 

TEIXEIRA, Luís Filipe B., «Virtualidade e heteronímia: As aventuras pessoanas de Alice», in Revista Lusófona de Humanidades e Tecnologias, nº 1 Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, volume I, nº 2, 2º semestre de1999

---, «Edição Crítica, hipertexto e biblioteca electrónica: Dêem um modem a Fernando Pessoa», in Imagens e Reflexões: Actas da II semana internacional do Audiovisual e Multimédia, Lisboa, Edições Lusófonas, colecção «Estudos de Comunicação, Cultura e Tecnologia, nº 4, 1999, pp. 106-110.

---,.Pensar Pessoa: A dimensão filosófica e hermética daobra de Fernando Pessoa, Porto, Lello & Irmão, 1997.

TURKLE, Sherry, O segundo Eu: Os computadores e o espírito humano, trad. de Manuela Madureira, Lisboa, Presença, 1989 (partes)

---, Life on screen: Identity in the age of the Internet, London, Weidenfeld & Nicholson, 1996 (trad. port. Relógio d'Água, 1998) (partes)

WHITBY, Max, «Is Interactive Dead?», in Wired. 1.1 (1993), pp. 41-42.

WHITE, Hayden, Tropics of Discourse: Essays in Cultural Criticism. London, John Hopkins UP, 1987.

WOOLLEY, Benjamin, Mundos virtuais: Uma viagem na hipo e hiper-realidade, tradução de Maria A. N. Freire, Lisboa, Editorial Caminho, 1992

YANKELOVICH, Nicole, «From Electronic Books to Electronic Libraries: Revisiting 'Reading and Writing the Electronic Book», in Delany and Landow, pp. 133-141

voltar


Enviar    Imprimir

Copyright © 2017 | Luis Filipe B. Teixeira
powered by: CANALPT
Creative Commons License