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Nos passos de...David: Retrato de uma Memória

(texto da comunicação apresentada ao Colóquio «Davidando», em homenagem a David Mourão-Ferreira, na Cátedra David Mourão-Ferreira, Università di Bari- Instituto Camões, 11 e 12 de Maio de 2007)

Em primeiro lugar, gostava de agradecer este honroso convite que me foi dirigido para participar neste prestigiado e prestigiante ciclo de actividades em homenagem a David Mourão-Ferreira, no qual se inclui este colóquio «Davidando», promovido pela Cátedra com o seu nome, do Centro Studi Lusofoni/Universidade de Bari e Instituto Camões e, em especial, à Professora Fernanda Toriello pela confiança depositada, aproveitando para cumprimentar e enviar as melhores saudações académicas e pessoais aos Exmos Familiares de David Mourão-Ferreira e aos insignes Colegas e Amigos presentes nesta sala.


«David Mourão-Ferreira: Se este nome tem, para todos, uma ressonância especial no panorama da cultura portuguesa do nosso tempo, tem ainda mais, para quantos o conheceram e privaram com ele, o poder de evocar alguém com toda a força de uma presença concreta: o grande criador literário, o grande professor, o grande crítico, o cidadão, o europeu à outrance, com certeza; mas também o Homem e a sua riquíssima personalidade, a sua amizade sem falhas, a sua gentileza de trato, a sua imensa cultura vivida, a sua maneira de se exprimir, afável e sempre bem articulada, o seu humor temperado de fina ironia; e, claro, o seu proverbial cachimbo, o fato de tweed a dar-lhe um toque desportivo à postura confortável, o seu lado gourmet, o seu amor de viagens e dos livros…»

Vasco Graça Moura



Estas palavras sobre David Mourão-Ferreira foram escritas por Vasco Graça Moura e publicadas no «Editorial» do Boletim Cultural Gulbenkian (Novembro, 1996 - em sua homenagem) − Boletim que orientou e de que é Director a partir de 1984 − e exprimem bem, em breves linhas, a imagem memorial que guardo dele, não na totalidade das palavras, pois não tive a honra de ter assistido às suas aulas, nem de privar ao ponto de lhe «saborear», por exemplo, o tal seu «lado gourmet», mas pelas recordações que guardo (breves mas, talvez por isso, bem reais), quer dos «cruzamentos» nos corredores de Letras, ou na Livraria Universitária (Campo Grande), ou ainda, penso, peripateticamente, nos próprios jardins do Campo Grande. Na altura, início dos anos 80, andava a dar os primeiros passos universitários no campo das Filosofias, embora, desde sempre, por ter dela a noção de se tratar de uma «Literatura Superior», e por, já nesse tempo, nutrir uma grande paixão pelos «mistérios» gregos, à semelhança do que acontecia com ele, bem como pelo «sabor» que o «saber» tem, sempre foi com enorme satisfação que me deleitava a ouvi-lo falar, quantas vezes, de coisas que só viria a perceber o seu verdadeiro alcance anos depois. Por outro lado, lembro-me bem do seu cachimbo, até por, também por esses anos, andar a aprender essa «arte», recordando- me de ter comentado para mim o deleite com que ele a exercitava, e o modo como, ao falar, as Palavras tomavam novas formas e odores! Hoje, ao dizer isto e rememorando esses instantes e algumas das oportunidades perdidas de aprofundar essas breves tertúlias, relembro, igualmente, aquelas sábias palavras de Confúcio:

«Há três coisas que nunca voltam atrás: a palavra dita, a flecha disparada e a oportunidade perdida.»


Ora, foi nos finais dos anos 80, mais concretamente, em 1988, que saiu a público o seu Nos Passos de Pessoa, livro que, ganhou o Prémio de Ensaio Jacinto do Prado Coelho (ex- aequo com Ernesto Sampaio), publicado dez anos após ter organizado o volume das Cartas de Amor (Ática), de Fernando Pessoa, a vários títulos, uma outra peça chave da bibliografia activa pessoana, mas também sendo de referir, evidentemente, o ensaio que escreve em jeito de posfácio (e que reedita nestes Nos passos de Pessoa, pp. 97-130), e em que, pela primeira vez, chama a atenção para alguns pontos críticos, quer sobre o significado dessas mesmas cartas, quer da importância da epistolografia como «género», quer, ainda, dos problemas com que se defrontam as edições, nomeadamente, como escreve,

«(…) pela falta de unidade nos estudos que a ele se reportam, a crescente multiplicidade e a própria dispersão tópica dos seus investigadores e dos seus exegetas − acrescentando-se à clamorosa ausência de um critério homogéneo no modo como se tem processado a edição das suas obras − quase por completo impedem o conhecimento da existência ou não existência de tais factos, da existência ou não existência de tais propósitos.» (Nos passos de Pessoa, p. 100; Cartas de Amor de Fernando Pessoa, Lisboa, Ática, 2001, pp. 180-181)

palavras que, infelizmente, e em muitos aspectos, ainda hoje, trinta anos volvidos, permanecem verdadeiras.

Este livro de David Mourão-Ferreira, incluindo nove ensaios e um outro em «Apêndice» (escrito em 1945, quando o autor tinha 18 anos e, segundo as suas próprias palavras, «demasiado imaturo», ainda anterior à própria edição pela Ática dos «Poemas de Alberto Caeiro» (de Agosto de 1946), mas que, por isso mesmo, se constitui, porventura, como «um dos primeiros – se não o primeiro – dos textos consagrados a Pessoa por alguém da geração do autor» (p. 171)), abarca quatro décadas de escrita, indo desse ano de 1945 até precisamente, 1985 (data do sexto, oitavo e nono ensaios). Em termos de estudos pessoanos, diríamos que atravessa dois momentos fundamentais, quer a respeito da bibliografia activa quer passiva, ou seja, vai da quase inexistência de edições dos textos pessoanos (como refere, baseou-se, para esse estudo de 45, na «consulta de revistas como a Atena e a Presença – e, sobretudo, da antologia organizada por Adolfo Casais Monteiro» (Ed. Confluência, 1942)» (p. 172) ), até às portas da publicação das primeiras edições críticas por parte de Ivo Castro (aliás, também por si referidas a respeito do polémico «Dia triunfal» de génese da figura de Caeiro e da formação da Equipa Pessoa (1988), que promoverá a fixação critica dos documentos do espólio existente na Biblioteca Nacional, abarcando, igualmente, alguns dos momentos «genesíacos» dos estudos teóricos sobre a sua obra.

Ora, lemos este livro de David em meados 89, já em preparação final de escrita da dissertação de Mestrado em Filosofia (defendida em Janeiro de 90), na qual tratamos da dimensão orgânica (sub specie interioritatis) e demiúrgica da heteronímia pessoana (cf. Luís Filipe B. Teixeira, O nascimento do Homem em Pessoa, Lisboa, Cosmos, 1992). Desde logo nos chamaram a atenção alguns dos seus ensaios «arqueológicos», como escreve, aí incluídos, nomeadamente, os que se referem a Camões (III-1980), a Antero (IV-1982), às relações entre Mário de Sá Carneiro e Pessoa por relação com Ícaro e Dédalo (V-1964) e, evidentemente, sobre as quatro modelações tipológicas do processo heteronímico (IX-1985). No que se refere a este último caso, damos mesmo notícia disso no texto então escrito:

«Toda esta nossa análise vai na linha daquelas interpretações que fazem da obra pessoana, respectivamente, uma «quadratura do sentimento de ilusão»; um processo circular de significação», no interior do qual é possível encontrar quatro tipos de ficção; uma sinfonia às «Quatro Estações»; ou, ainda, uma viagem anagógica, que toma por base as fases do processo alquímico» (Luís Filipe B. Teixeira, op.cit., p. 71).

Em traços muito largos, as nossas investigações preocupavam-se em elucidar, quer a possibilidade de uma morfogénese fenomenológica do que viríamos a designar por «quadratura do círculo» heteronímico ou «quadrifonia» heteronímica, assente nas suas várias vertentes (como evolução da Consciência, como escala de despersonalização e como graus de iniciação) (cf. Luís Filipe B. Teixeira, Pensar Pessoa, pp. 169-192) e explicações (prima facie, entre o «orgânico» e o «transcendental», por referência à «histero-neurastenia» e ao «histerismo ditirâmbico» (isto é, às tais «Quatro Estações» por ele referidas) e aos princípios dionisíaco/apolíneo); quer, sobretudo, alguns dos seus paradigmas e «passos», nomeadamente, de associação entre o «ser tudo de todas as maneiras» e a «pluralidade de sentir», por relação com o neo-paganismo e a multiplicidade dos Deuses que habitam em «cada canto da minha alma» (Campos), isto é, em que cada deus mais não é do que a epifania de uma forma diferente de (se) sentir.

Já na altura encontrámos pegadas de alguns destes temas nos ensaios de David, sobretudo naqueles referidos acima, em que chama a atenção para algum deste pioneirismo hermenêutico, como escreve,

«do entendimento global da criação heteronímica de Pessoa como renovado avatar de uma nossa persistente tradição poética (a bucólica) no seu pendor parateatral e despersonalizante; o da articulação deste mesmo aspecto com o tema do Labirinto e com o mito de Dédalo (bem como, correlativamente, o da articulação do destino e da obra de Mário Sá –Carneiro com o mito de Ícaro); (...) o da viabilidade de uma «leitura» de poetas portugueses de outros séculos (na circunstância, Camões) à luz reflexa do «caso» de Pessoa; enfim o da revelação integral, e respectiva primeira análise, das únicas «cartas de amor» que de Pessoa se conhecem, com o apendicular rastreio de umas tantas «figuras de mulher» que na sua poesia se conhecem. »

Ou seja, vimos confirmada a ideia da importância:

(a) na nossa tradição, da via despersonalizante, já presente em Camões, embora, evidentemente, de modo diferente (os Lusíadas como «longo monólogo com diversos ‘eus’» e, implicitamente, o proceso heteronímico como uma «maneira nova de empregar um processo já antigo», p. 44);
(b) da referência à figuração mítica e mitológica como quadro interpretativo;
(c) da figura de Antero como seu referente primordial, já em 1905-1908 (ideia essencial, quer para a ligação com o caso «Fradique Mendes», como refere, uma das primeiras experiências heteronímicas da literatura portuguesa; quer para a chamada de atenção que se fez para a importância precursora do «caminho-de-ferro» que passa pelo «Santo Antero» no desenvolvimento de muitas das linhas do pensamento pessoano, começando logo pelo facto, como escreve Pessoa numa das suas cartas a Cortes-Rodrigues, ter sido a partir da leitura das «Odes Modernas» de Antero que o levou a escrever em português! (cf. Nos passos de Pessoa, p. 55));
(d) e, mesmo, das ligações, passíveis de se estabelecer, entre essas tais «figuras de mulheres» e algumas das características do menadismo grego.

Por exemplo, só para se referir uma dessas ligações, diriamos apenas que, tal como David escreve nesse livro, e registámos num dos ensaios posteriores,

«Antero vai desempenhar um papel fulcral no contexto geral do pensamento pessoano, não só a nível da fundamentação do seu transcendentalismo (metafísico, superior) − até porque, como dirá no seu artigo seguinte [de a Aguia], Antero é o supremo representante da poersia transcendentalista −, como igualmente através de uma relação possível de estabelecer entre a heteronímia e a «dualidade irredutível» anteriana. (...) Esta irmandade (analógica) entre o «Santo Antero» e Pessoa seria visível, igualmente, no celebrado «episódio-Fradique» (vivido pelo primeiro em parceria com Eça e Batalha Reis) (...)» (Luís Filipe B. Teixeira, Pensar Pessoa, p. 59).

Em suma, e por tudo isto, concluiríamos estas nossas breves palavras acrescentando apenas que, posteriormente, como acontece regularmente com os grandes autores e pensadores, descobrimos em David Mourão-Ferreira, por relação ao que diz de Pessoa ou de outro dos autores por si analisados, muito do que diz dele Eduardo Lourenço:

É no monumento de palavras que se inventou para deter nelas o fulgor feito de sol e nada, de tanta deusa do efémero, que se reconheceu. Mas só ele sabia que o rosto que procurava decifrar nesse fulgor de duplo perfil, era unicamente o seu. (Eduardo Lourenço, «Fulgurante Memória», Boletim Cultural Gulbenkian, Novembro 1996, p. 15)

Ou seja, um pouco à semelhança de um dos poemas, senão mesmo, o poema mais difícil de interpretar (mas também dos mais belos) alguma vez escritos por Pessoa: o «Eros e Psique», nesses textos sobre Pessoa, também se «ensaia» o próprio David, num «mimetismo identitário» (de Amor Feliz) em que se figura esse ver «que ele mesmo era/A Princesa que dormia.».

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