Ensaios » Varia

Dédalo e as figur@ções maquínicas da escrita 2.0: Alfabetos, ars combinatoria e hipertexto

(texto-base da comunicação ao ICNC2001-Congresso Internacional sobre as Redes, Comunicação e Linguagens, in RCL, número especial sobre este Congresso, 2002,pp. 401-408 (reedição em Hermes ou a Experiência da Mediação (Comunicação, Cultura e Tecnologias), Lisboa, Pedra de Roseta, 2004, pp. 145-154)
 
 
As letras sagradas utilizadas entre os egípcios eram chamadas hieróglifos [] que eram imagens [] retiradas das coisas da natureza e das suas partes. Pelo uso de tais escritos e vozes (voces), os egípcios costumavam capturar com habilidade maravilhosa a linguagem dos deuses. Mais tarde, quando as letras do tipo que hoje utilizamos, com outra espécie de indústria, foram inventadas por Teut, ou por algum outro, houve uma grande brecha na memória e nas ciências divinas e mágicas.
 
 Giordano Bruno, De magia
 
Os sábios do Egipto [...] para designarem as coisas sabiamente, não usam letras desenhadas que se desenvolvam em discursos e proposições e representem sons e palavras; desenham imagens, cada uma das quais se refere a uma coisa distinta, e esculpem-nas nos templos  [...]. Todo o sinal gravado é pois uma ciência, uma sabedoria, uma coisa real, apreendida de um só golpe  [...].
 
            Plotino, Enéades V, 8, 5-6
 
 
§ 1. Dédalo, artista universal, simultaneamente, arquitecto, escultor e inventor de recursos mecânicos, a quem se atribui, por exemplo, a criação das estátuas animadas referidas por Platão no seu Ménon, foi o grande construtor, para Minos, do Labirinto de Creta onde foi encarcerado o Minotauro e, mais tarde, o próprio Dédalo e seu filho Ícaro, devido ao primeiro ter ensinado a Ariadne a artimanha para salvar Teseu. Ambos fugiram de lá a partir de umas asas, presas com cera, construídas por Dédalo.A história acabou mal para Ícaro que, orgulhoso, foi vencido pela húbris. Ora, a criação labiríntica da rede dos alfabetos constituiu, sem qualquer dúvida, um dos momentos essenciais do desenvolvimento do processo comunicacional e cultural. O seu aparecimento coloca, à partida, a questão de se saber de que modo eles se distinguem das outras formas de escrita.
Ao contrário do que usualmente e à primeira vista se supõe, a escrita não é apenas transcrição do oral num acto gráfico, antes remontando ao reconhecimento visual da marca. Não fixa, necessariamente, o oral numa palavra ou conjunto de palavras, podendo também reproduzir o visual de forma autónoma. Mesmo sendo certo que a criança ocidental aprende a escrever após o desenvolvimento da fala e numa relação funcional com esta, contudo, é falsa a identidade entre estas duas «infâncias», a do homem ocidental e da escrita pois, fenomenológica e paradoxalmente falando, a escrita emerge do isolamento de um traço significante através da grafia, evoluindo até se constituir como suporte do som. Assim, a evolução teve por etapas o pictograma, o ideograma e o signo alfabético, figurações paralelas ao processo abstractivo, desembocando na ordem linear consubstanciada no próprio alfabeto.
 
O Alfabeto: conjunto das letras de uma língua dispostas segundo uma ordem determinada (Littré)
 

O alfabeto, normalmente definido com a série ordenada de todos os signos de que uma dada língua dispõe para transcrever os sons vocálicos ou consonânticos, constitui antes de mais nada o reportório dos elementos sobre os quais opera a escrita ao produzir uma forma significante que permita a comunicação. Este tipo de transmissão do sentido é evidentemente diferente do sentido oral que tem a voz como meio operativo e a língua natural como código. O alfabeto intervém também na construção de linguagens artificiais e simbólicas como as da álgebra ou da química, e fornece, além disso, o esquema ordenador de toda uma série de produções; ou institui a hierarquia ou permite repertoriar objectos díspares que surgem no mesmo plano. Não mencionando léxicos e dicionários, a enciclopédia ordenada alfabeticamente, tal como se afirmou a partir do século XVIII, garante a possibilidade de realizar uma combinatória livre que, sendo compatível com uma sistemática, exclui o sistema.

 Ensaio Completo

voltar


Enviar    Imprimir

Copyright © 2017 | Luis Filipe B. Teixeira
powered by: CANALPT
Creative Commons License